segunda-feira, 29 de junho de 2009

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina
não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé
não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá
não conhece nem lá nem sí
mas fecha os olhos e sorri
roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina
mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Horizonte


havia uma menina sentada
junto a uma janela
ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos
tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe
talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão
ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo
às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar
a casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo
e a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos
nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela
e a menina sabia-o
não sei bem como
os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes
e por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe
ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe
o tempo era
verdadeiramente
algo indistinto
e os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade
sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes
e no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir
de vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte
um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira
ria sempre
que alguém dizia
infinito
desde então
passava noites inteiras
na sua janela
nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças
há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade
outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares
que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol
que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens
eu sei que ela tem uma janela nos olhos
imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte
julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva
provavelmente
conhece mesmo o fundo dos mar
e
se nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia

[José Rui Teixeira]

Ode do Castigo


só mais uma menina entre outras
e o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
como um erro ortográfico do coração.
castigo.
entre nós o alto muro do recreio
e a obrigação de permanecer só.

[Ana Salomé]

A última cantiga


Num dia que não se advinha,
meus olhos assim estarão:
e há de dizer-se: "Era a expressão
que ela ultimamente tinha."

Sem que se mova a minha mão
nem se incline a minha cabeça
nem a minha boca estremeça
- toda serei recordação.

Meus pensamentos sem tristeza
de novo se debruçarão
entre o acabado coração
e o horizonte da língua presa.

Tu, que foste a minha paixão,
virás a mim, pelo meu gosto,
e de muito além do meu rosto
meus olhos te percorrerão.

Nem por distante ou distraído
escaparás à invocação
que, de amor e de mansidão,
te eleva o meu sonho perdido.

Mas não verás tua existência
nesse mundo sem sol nem chão,
por onde se derramarão
os mares da minha incoerência.

Ainda que sendo tarde e em vão,
perguntarei por que motivo
tudo quanto eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito "Não".

E ondas seguidas de saudade,
sempre na tua direção,
caminharão, caminharão,
sem nenhuma finalidade.

[Cecília Meireles]

terça-feira, 23 de junho de 2009

Girassol


[...]
Gira, gira, girassol
Um girassol
nos teus cabelos
Batom vermelho
Girassol
[...]

Ele não conseguiu esconder. Era a verdade. O tom vermelho de sua mentira era encantador. E ela vinha em sua direção. Ruborizando seus sentimentos, adoecendo seu coração. Era intensa, era a cor da paixão. Eles foram um para o outro o mundo escondido que eles queriam eternizar. Eles sorriram e a troca de olhares fez o samba mais doce, a melodia mais encantadora. Eles se deram as mãos e foi o que bastou por alguns instantes.

Mas de repente, havia uma mão segurando a outra e não era a dele. Havia um lábio beijando o outro e não era o dele. O que aconteceu? Ele se perguntava.

E sua doce mentira o jogou ao samba mais triste. A alegria dela rodopiava a noite inteira em sua frente e foi uma elegia que ele cantou. O vermelho de sua boca era dava o tom da brevidade.

Ele sentia o abandono mais fugaz de sua vida. Um menino que sempre fora, pulsava em sua alma. Sentia como um filhote sem abrigo a dor amarga da despedida. Queria voar e encontrou a gravidade do desespero. Nada mais podia uni-los.

Os sinos entoavam o final da encenação. E o desiludido espectador aplaudia a própria angústia. Apenas uma mão acenava sem querer ir embora. Era apenas o seu olhar que seguia o coração que se distanciava e levava consigo a outra parte da história, que parecia que nunca mais iria ser contada.

Foi um adeus longínquo. Horas olhando o fim de seu tempo, sem esperanças. Uma fé perdida entre os dedos das mãos que não se tocavam mais.

[Simone Venske - Coração Sonhador]

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Simplesmente isso aqui


E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa da televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço ________ e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender porque é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores-anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar porque é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.
[Sarah Kane]

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Re-começo 3


Essa é a terceira vez que começo o blog. Pretendo, desta vez, não divulgá-lo.